Falha Humana artigo do advogado Cláudio Candiota Filho sobre os apagões

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Falha Humana
advogado Cláudio Candiota Filho

Estou inclinado a concordar com a presidente Dilma quando atribui os apagões à falha humana,
até porque, ao que se sabe, não há robôs administrando a Secretaria de Aviação Civil, a ANAC,
a Infraero e outros órgãos públicos.

Veja-se das declarações da presidente à imprensa, conforme noticia o Portal G1:
“[No Galeão], há duas coisas. É [falha] humana no sentido de que aquilo ali tem que ser trocado.
[…] O sistema elétrico inteirinho do Galeão tem que ser trocado, tanto é que está licitado.
Dois, teve uma sobrecarga por conta do ar condicionado, que chegou a 46 graus e é velho.
Então é falha humana porque você tinha que ter trocado. Você tinha que ter se antecipado
que a temperatura ia subir, você tinha que ter trocado”. Salvo melhor juízo,
tanto a análise quanto o diagnóstico estão corretos.

Acertar o diagnóstico é tão importante quanto o tratamento, pois diagnóstico errado induz
o médico a receitar o remédio errado podendo, até, levar o paciente à morte.
As declarações da presidente permitem concluir que a falha de planejamento também é humana,
pois alguém “tinha que ter se antecipado que a temperatura ia subir, …tinha que ter trocado
[o sistema elétrico inteirinho do Galeão]”. É claro que o sistema inteirinho tinha que ser trocado
antes de explodir. Assim, houve falha humana daquele que não planejou,
imaginando que equipamentos se tornam obsoletos, ficam velhos e quebram.

Um sistema de ar condicionado, depois de milhares de horas de uso vai quebrar, até na Suíça.
Só que lá eles trocam o ar condicionado antes de quebrar e o aeroporto não fica às escuras
e vira forno, sob um calor de 40 graus. E na Suiça também faz calor no verão e muito frio
no inverno. Os suíços não derretem no verão e não congelam no inverno dentro dos aeroportos.
Aliás, na Suíça também não se ouve falar de apagões de energia. E, curiosamente,
na Suíça também tem seres humanos. Qual a diferença? Seriam os suiços infalíveis?
Certamente que não.

Voltemos ao Brasil, pois, aqui, agora, temos o diagnóstico: a falha é humana.
Falta, então, dar o nome ao humano responsável pelos apagões nos aeroportos e nas residências
dos demais seres humanos que habitam no Brasil. Não tendo nomes, vamos aos cargos.
Seria o principal culpado o eletricista que aperta o parafuso do ar condicionado
que não viu que o parafuso e todo o sistema estava velho e enferrujado?
Não,  certamente que não! Seria, então, o chefe dele ou o chefe do chefe dele?
Também não. Pode-se, até, presumir que o eletricista, o chefe do eletricista,
o chefe do chefe do eletricista, o engenheiro eletricista e mais da metade dos técnicos da Infraero
tenham avisado seus respectivos chefes, várias vezes, que o sistema de ar condicionado ia explodir,
porque estava velho e deveria ter sido substituido há cinco, seis, sete anos.

Teria sido, então, falha humana do superintendente do aeroporto?
Provavelmente não, pois uma vez alertado pelos técnicos quanto ao risco de falha
do ar condicionado, deve ele ter comunicado seus superiores, até porque nem mesmo
o superintendente gosta de ficar no escuro e derretendo sob um calor de 40 graus.
Sendo assim, supondo que esteja correta essa linha de raciocínio, não se pode atribuir
a falha humana aos técnicos, que alertaram, e não sendo os técnicos os culpados quem sobra?

Vejamos. Ao contrário do que ocorre na Suiça, no Brasil, há muito tempo se instalou
um câncer maligno conhecido como loteamento dos cargos públicos.
Técnicos vêm sendo substituídos por políticos indicados por apadrinhados de outros políticos.
A Infraero, que já foi uma empresa altamente profissionalizada, virou alvo do loteamento
de cargos. Exemplificando: a senhora Rosemary indicou seres humanos para vários cargos,
entre os quais, diretores de agências reguladoras. Em agências reguladoras,
os diretores são indicados pelo presidente da República e aprovados pela Senado.

O que eles têm em comum? São seres humanos. Assim, para evitar o problema dos apagões aéreos,
terrestres, de energia, em definitivo, deve-se procurar a origem da falha humana,
identificando-se os nomes dos seres que indicaram e, também, daqueles que aprovaram,
uma porção de militantes políticos para ocupar milhares de cargos técnicos, na Infraero,
na ANAC e em outros órgãos. Rosemary não vale, porque já se sabe. Mas, a boa notícia é que,
agora, já temos o diagnóstico: a falha é humana. Não deixa de ser um começo.
Ainda mais às vésperas do ano novo. Assim, aguarda-se os nomes, as punições
e as demissões dos humanos que falharam, na expectativa de um ano novo feliz para todos!

Advogado e presidente da ANDEP  Associação Nacional em Defesa dos Direitos dos Passageiros do Transporte Aéreo

Claudio Candiota Filho

Advogado e presidente da ANDEP Associação Nacional em Defesa dos Direitos dos Passageiros
do Transporte Aéreo

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